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    Miguel Orcel de Araújo Filho, nasceu na cidade de Acaraú, Ceará, a 06 de fevereiro de 1881, homem branco, olhos azuis, simples, coerente até na sua deselegância física. Descende das famílias ARAÚJO COSTA, SOARES BULCÃO, COSTA, FERREIRA GOMES, TELES DE MENEZES, PORTO, DIAS LEITÃO, FERREIRA, FONTELES e VASCONCELOS.

   Miguel Orcel de Araújo Filho – filho de MIGUEL ORCEL DE ARAÚJO e MARIA CÂNDIDA DE ARAÚJO. Neto paterno de de João Pedro de Araújo e de Maria José Menezes (Araújo). Neto materno de Vicente Ferreira de Araújo e de Teresa Rosalina de Vasconcelos. 

                   Termo de Batismo: Miguel Orcel de Araújo Filho.

"Miguel, branco, filho legitimo Miguel Orcel de Maria Araújo e Maria Cândida de Araujo nasceu aos seis de fevereiro de 1881 e foi batizado por mim na Matriz (do Acaraú) aos aos 22 do mesmo mês e ano. Foram padrinhos: Vicente Ferreira de Araújo (avô materno e tio paterno) e sua mulher Teresa Rosalina de Araujo (Vasconcelos). E para constar fiz o presente em que me assigno. O Vigário Antônio Xavier Maria de Castro". Cf. Livro de Batismos, Nossa Senhora da Conceição, Acaraú. 1879/1882. family search.org. 80. FAAL . 

     Termo de casamento Miguel Orcel de Araújo Sênior e sua prima com Maria Cândida.

  “Aos trinta e um de julho de 1879, no Sítio Cajueiro, desta Freguesia, (de Santana do Acaraú), feitas as denunciações, sem impedimentos, em presença do Reverendo Francisco Theótimo de Maria Vasconcelos, de minha licença, sendo testemunhas, Miguel Horácio Messias de Araújo e João José de Maria, contraíram matrimônio, Miguel Orcel d’Araújo, filho legítimo de João Pedro d’Araújo e de Dona Maria José de Jesus, com Maria Cândida d’ Araújo, filha legítima de Vicente Ferreira d’ Araújo e de D. Teresa Rosalina d’ Araújo, ambos naturais e moradores nesta Freguesia (de Santana do Acaraú); e estavam dispensados dos parentescos que os ligam; logo lhes foram dadas as bênçãos nupciais na forma do Ritual, do que para constar fiz este assento que assino. O Vigário Colado (de Acaraú) Padre Francisco Xavier Nogueira.” . Cf. Livro de Matrimônios. Santana do Acaraú. 1852/1885. Familysearch.org.  226. Miguel Orcel de Araújo Sênior, homem de profunda fé cristã, austero, realizou viagem a Terra Santa, no início do século XX, visitando os sagrados locais de Jerusalém, efetivando um sonho que sua condição econômico-financeira permitia. Encaminhou os filhos para os estudos e para a vida religiosa. Foi agro-pecuarista dono da fazenda Umari, localizada no limite dos municípios de Morrinhos e Santana do Acaraú, e em Sobral, dono de parte da fazenda Córrego. Comerciante em Sobral, estabelecido nas proximidades da Igreja da Sé, no ramo de peças de ouro e prata.

   Orcel Filho morou na cidade de Sobral, onde teria estudado com o Professor Henrique Pinto Ferreira Gomes e na Escola do Professor Vicente Ferreira de Arruda. Segundo a tradição oral existiu uma amizade grande entre D. José Tupynambá da Frota e Miguel Orcel Filho, iniciada quando colegas de estudo em Sobral e continuada através de visitas do Bispo a sua casa no Benfica.  D. José estudou depois em Salvador, Bahia e Roma, Itália. (1) ARAÚJO, Padre Francisco Sadoc de - Traços Biográficos de Dom José Tupinambá da Frota. S/E. Sobral, Ceará. 1982. Pág. 6.

    Miguel Orcel Filho foi aluno do Seminário da Prainha, Fortaleza. No Livro de Matricula do Seminário de Fortaleza, 1898 - 1910, página 9, consta:

–    1898 1° de março  

Miguel Orcel de Araújo, filho legítimo de Miguel Orcel de Araújo e de Cândida Orcel de Araújo: nasceu a 6 de fevereiro de 1881, no Acarahú, morador no Sobral.
Copte. Dr. Antônio Sabino do Monte*. (2) STUDART, Barão de - Diccionario Bio-Bibiographico Cearense. I.U. Universidade Federal do Ceará. Fortaleza. 1980. Vol. 1. Pág. 126.      *Antônio Sabino do Monte: a função que desempenhava em relação a Miguel Orcel de Araújo Filho, de correspondente, responsável, era importante para o jovem e demonstra a amizade entre as famílias. Representava o Pai do aluno junto ao Seminário. Antônio Sabino do Monte, formado em Direito pela Faculdade do Recife. Juiz em Santana do Acaraú, Ceará, Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, Presidente da Paraíba. Filho de Miguel Francisco do Monte e de Ana Clara Saboia. Neto paterno natural de Manoel José do Monte Araújo, {casado com Ana Francisca Ferreira da Costa} e de Isabel Maria da Conceição, solteira.

 1900 - não voltou março nada deve a casa

   O Livro de Exames do Seminário de Fortaleza, 1896 a 1906, pág. 86, traz as cadeiras e respectivas notas atribuídas nos meses de julho a dezembro 1898, do terceiro ano, e as do quarto ano dos meses de julho e dezembro de 1899. Estudou no Seminário:

     Latim                           História do Brazil                     Arithemética     Francez                    


    Portuguez                    Chorographia do Brazil                         Catecismo

        A aprovação podia ser simples, plena ou com distinção, as notas ou conceitos iam de medíocre, sofrível, quase bom, bom, quase ótimo e ótimo. Miguel Orcel de Araújo Filho demonstrava sensível inclinação para o francês, o português e o catecismo. Nada inclinado para “arithemética”. Resisti até hoje em divulgar as suas notas.  A inexistência de pendor para aritmética teria influência futura no serviço público, cuja repartição era dominada por engenheiros, auxiliares de engenheiros, agrimensores, topógrafos. Por sua formação ou tendência humanística, prendeu-se a armadilha da burocracia.  

                                                                     

   O deslocamento dos cearenses para o cenário da Região amazônica, estimulados, por aliciadores profissionais, que louvavam os encantos da Hiléia, reforçando tudo com a presença de paroaras, e de outra parte a fixação das cenas terrificantes vivenciadas nas secas, era uma constante no final do século XIX e início do século XX.

   Miguel Orcel Filho não fugiu à regra geral. Jovem com idéias, algum recurso e disposição, tentou a Amazônia. Viveu dez longos anos, 1903/12, ao contato enervante e imponderável da floresta, sempre a recordar os sertões do Estado longínquo, ele que como todo cearense recebeu ao nascer a herança de ser determinado e forte. História as contou pelo resto da vida, sobre fatos bons e maus da permanência na selva. Lembrava que enterrava por precaução, sal e sabão, em local conhecido, pois com o atraso comum dos navios que abasteciam o barracão, a falta de um era extremamente prejudicial à alimentação e a do  outro a higiene.

   Serviu de mediador, quando dez índios fugiram de uma tribo. Procurado pelo cacique dos fugitivos, empreendeu viagem de três dias de ida e três de volta, mata adentro, para manter contato com os nativos e convencê-los a retornarem. Missão cumprida, festa à noite, o chefe índio a quem fizera o favor, agradecido, ofereceu-lhe como recompensa, duas jovens índias, e para pôr termo à recusa, religioso que era, se houve em embaraço. Haveria alguma índia sua amiga de nome Esteany?

    O fato descrito comprova que conviveu com os indígenas, por quem muito se interessou. O nome por ele escolhido, para a sua segunda filha, Esteany é étimo aruaco ou caribe, (3) não se logrou esclarecer. Explicado em família como significando “pessoa simpática”.  (3) CARDOSO, Armando Levy - Amerigenismos. Tomo 1. Biblioteca do Exército – Ed. do Ministério da Guerra. RJ. 1961. Pág. 95 a 356.                          

  Amazônia dos Cearenses:  

      “Aproximadamente 500.000 nordestinos, de 1827 a 1960, que ‘vieram fazer a Amazônia, representando assim o maior movimento humano das migrações internas da história brasileira, superado somente pela migração pau-de-arara para São Paulo. Expulsos do Nordeste devido às secas do século XIX, os migrantes chegavam à Amazônia para serem flagelados, retirantes, brabos, comboieiros, mateiros e seringueiros, numa primeira fase. Na sua labuta, os cearenses-nordestinos também foram gerentes de depósito, regatões, seringalistas, coronéis de barranco, chefes políticos, prefeitos, deputados e até assumiram o governo de alguns estados amazônicos; muitas vezes esses cargos políticos foram conseguidos pela segunda e terceira geração de seus filhos e netos; por isso, a Amazônia está impregnada originalmente de cearenses-nordestinos.”    “......A Amazônia recebeu  mais de 150.00 cearenses, de 1900/1910” Cf. Samuel Isaac Benchimol, Amazônia: Formação Social e Cultural, Ed. Valer, Manaus, 1999, pág. 135. 

         Havia a história da notícia a ser dada, que seu genro Antônio Augusto, sempre pedia para contá-la. Resumindo: Miguel Orcel recebera a correspondência no barracão maior do seringal, e foi fazendo a sua distribuição. Ficou, então, a par da morte de um parente do companheiro que morava em outro barracão distante. Foi incumbido de fazer a comunicação. Viajou e ao chegar ao seu destino, procedeu como se nada tivesse acontecido. Deu tempo ao tempo, pois não iria dar notícia logo após o almoço. Pressionado pelo companheiro, que perguntava uma vez mais, Orcel e as notícias? Não são boas, responde. Já sei, foi o meu irmão que estava doente que morreu... Foi. E seu pai também.

       Outro caso: a morte do conterrâneo e parente, Francisco Raimundo Soares, “de beribéri galopante”, filho de José Firmino Soares, que já defunto, passou toda uma noite, nos braços do seu sobrinho, Zequinha (José Leopércio Soares Filho), no exíguo espaço de uma barraca, esperando o temporal passar e amanhecer. 

    Miguel Orcel de Araújo Filho casou-se com Dona Bila, Umbelina Ormiza Soares, sua prima em 3°, 4°, 5°, 6°, 7°, 8°, 9°, 10°, 19°, 20º, 21°, 22°, 23°, 24º, 25°,  26°, 27° e 28° grau de consanguinidade, (no estudo de 30 gerações, cada grau, pode acontecer várias vezes), na Igreja Matriz de Santana do Acaraú, Ceará, a 28 de maio de 1914. D. Bila, nasceu a 26 de fevereiro de 1892, em Santana do Acaraú, filha de José Leopércio Soares e de Maria Umbelina Soares. Passou a residir na cidade de Sobral, onde “montou casa com todo mobiliário, prataria e louças, inclusive importados da Inglaterra”. Instalou casa comercial, além de cuidar da Fazenda Córrego, dotada de açude e infra-estrutura, na cercania da cidade de Sobral.

                                                              Termo de Casamento Miguel Orcel de Araújo Filho

“A vinte e oito de maio de 1914, na casa de residência do Pai da nubente, casaram-se em presença do Revdo. Cônego Francisco Theotime de Maria Vasconcelos de minha licença Miguel Orcel d’Araújo e Umbelina Ormisa Soares; ele filho legítimo de Miguel Orcel de d’Araújo e Maria Cândida Orcel; ela de José Leopércio Soares e Maria Umbelina Soares. Foram dispensados dos infidecons. ig. quadrupl. Foram testemunhas, Jonas Demétrio de Souza e Pedro Orcel de Araújo. Para constar mandei fazer este assento que assino o Vigário Joaquim Severiano.” Cf. Livro de Matrimônios, Santana do Acaraú. 1902/1920. 127  nº 38

    Filhos por Umbelina Ormisa Soares e Miguel Orcel de Araújo Filho.

    1. Maria da Conceição faleceu a 25 de dezembro de 1915, com cinco meses de idade, pouco mais ou menos.

    2. Ana Esteany Soares de Araújo. Termo de batismo.   “Ana, filha legitima de Miguel Orcel de Araujo Filho e de Umbelina Soares Orcel, nasceu a 26 de julho de 1916, e foi por mim solenemente baptizada na Igreja Matriz (de Sobral) a 27 de agosto do dito anno. Padrinhos José Leopércio (Soares) Junior e Maria do Carmo Soares. Para constar mandei fazer este assento que assigno. O Vigario Padre Francisco Leopoldo Fernandes Pinheiro”. Anotado à margem: “Casou-se com Antonio Augusto de Araujo Lima a quinze de agosto de 1935. O Vigário Padre Domingos Rodrigues Araujo”. Cf. Livro de Batismos, Nossa Senhora da Conceição da Catedral, Sobral. 1916/1917. family search.org. 25.

      Termo de Casamento Antônio Augusto de Araújo Lima Neto e Ana Esteany.   “Aos quinze dias de agosto de 1935, na Freguesia de N. Senhora do Carmo, (Igreja de N. Senhora do Carmo), em presença do Monsenhor Doutor Aureliano Mota e das testemunhas, Dr. José Deusdedit Vasconcelos e do Dr. Venício Barreira, receberam-se em matrimônio por palavras de presente Antônio Augusto de Araújo Lima, 28 anos, natural de Milagres, filho de Augusto Leite de Araújo Lima e de Maria Carolina de Araújo Lima, com Ana Esteany Soares de Araújo, natural de Sobral, (não informa a idade, 19 anos), filha de Miguel Orcel de Araújo Filho e de (Umbelina) Bila Soares de Araújo. O nubente residente na Freguesia de N. Senhora do Carmo, e a nubente na Freguesia de N. Senhora dos Remédios. Ass. O Vigário da Freguesia de N. Sra. dos Remédios, Padre Pedro Vermeulen”. Cf. Livro de Matrimônios, Nossa Senhora dos Remédios, Fortaleza. 1934/43. familysearch.org. 20.

    3. José Wilson Soares de Araújo. Termo de Casamento.     “Aos vinte oito dias do mês de julho de 1943, feitas as denunciações canônicas, e demais formalidades prescritas, não havendo impedimento algum, na Igreja Matriz, (do Senhor do Bonfim de Crateús), em presença minha e das testemunhas, Henrique Machado Ponte e João Rufino, receberam-se em matrimônio com palavras de presente, José Wilson Soares de Araújo e Aracy de Mello Machado, ele, filho legítimo de Miguel Orcel de Araújo e Umbelina Soares de Araújo, natural da Freguesia de Crateús, e morador na mesma; e ela, filha legítima de Gonçalo Machado da Ponte e Ângela Mello Machado, natural da Freguesia de Crateús, e moradora na mesma: e logo lhes dei as bênçãos nupciais na forma do Ritual Romano, do que para constar lavrou-se este termo que assino. O Vigário, Padre João Batista Pereira.” Obs.: Por engano o nubente é dado como natural da Freguesia de Crateús, quando na realidade é da Freguesia de Sobral. Cf. Livro de Matrimônios, Senhor do Bonfim, Crateús. 1943/1945. familysearch.org. 04. 

   4. Filomena Soares de Araújo. Termo de batismo.   Filomena nasceu a 05 de julho de 1923, filha legítima de Miguel Orcel Fiho e de Billa Soares Orcel, batizada a 11 de agosto de 1923, na Igreja Matriz do Carmo pelo Cônego José Alves Quinderé. Padrinhos, João Leopércio Soares e Alzira Leopércio Soares.” À margem: Casou-se na Sé (Igreja de São Pedro, Praia de Iracema) a 05.05.1957, com Euclides Leite Xavier. O Vigário Monsenhor José Gaspar. Cf. Livro de Batismos, N.S. do Carmo, Fortaleza. 1923/1924. 07. N° 785.

   5. Francisco Gerardo de Souza. Termo de batismo.  Gerardo nascido a três de novembro de 1929, filho legítimo de Miguel Orcel e Bila Soares de Araújo, foi solenemente batizado pelo Padre Luís Gussenhoven, a 23 de novembro de 1929, sendo padrinhos José Ayres de Souza e Elvira Ayres de Souza. E para constar mandei fazer este assento que assino. Vigário Interino Pedro Vermeulen.”  Cf. Livro de Batismos, N.S. do Carmo, Fortaleza. 1923/1931. 38 nº 1324

   6. Vicente de Paulo Soares de Araújo. Termo de batismo.    “Vicente, nascido a quatro de maio de 1932, filho legítimo de Miguel Orcel Filho e Umbelina Soares de Araújo, foi solenemente batizado por mim nesta Matriz (do Carmo) a vinte e seis de junho de 1932, sendo padrinhos o Doutor José Deusdedit Vasconcelos e Ivone Mirtil Vasconcelos. Em testemunho da verdade assino. O Vigário Cônego José de Lima Ferreira.”   Cf. Livro de Batismos, N.S. do Carmo, Fortaleza. 1932/1933. 29 nº 783.

                                                                                       

   Instado por sua cunhada, Maria José Soares - Tia Zezinha - que mantinha profunda amizade por sua irmã Bila, veio morar em Fortaleza, onde a convivência das irmãs seria praticável. Estabeleceu comércio na Rua Senador Pompeu, quase esquina à Rua Major Facundo, passando a residir na atual Avenida da Universidade, Benfica, Fortaleza. Em 1919, desfaz a atividade comercial.

     A convite do seu concunhado, compadre e amigo, Jonas Demétrio de Souza, já então funcionário - Auxiliar de Engenheiro - da Inspetoria de Obras Contra as Secas - IOCS, segue com a família para a cidade de Pacatuba, para trabalhar na reconstrução do  Açude Riachão. O Açude Riachão ainda existe, com as velhas casas de funcionários do DNOCS, apesar da construção de outras barragens (Pacoti, Riachão - nova barragem - e Gavião) destinadas ao abastecimento d’água da cidade de Fortaleza.   

      O Açude Riachão foi construído no ano de 1888 pelo Engº Lassance Cunha e “arrombado” no ano de 1889.  A princípio existiu a Comissão de Obras Contra as Secas, de caráter temporário. O Decreto de n. 7.619, de 21 de outubro de 1909, criou a Inspetoria de Obras Contra as Secas. Pelo Decreto n. 16.453 de 12 de março de 1924, passou a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. No breve governo do cearense José Linhares, [José Caracas Alves Linhares], 1945 - tomou a denominação de Departamento Nacional de Obras Contra as Secas. (4) POMPEU SOBRINHO, Tomás - História das Secas. (Século XX). 2o. Volume. Coleção Instituto do Ceará. Editôra A. Batista Fontenele. Fortaleza - Ceará. 1953. Pág. 215,510.

     Antes do término da construção do citado Açude, retorna definitivamente à cidade de Fortaleza, onde morou o resto da vida, na Avenida João Pessoa, 3396.

      Como funcionário do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, DNOCS, exerceu a função de Auxiliar de Escritório no Arquivo Inativo, (5) onde trabalhou até à aposentadoria. (5) Almanaque do Ceará, Tip. Royal, Fortaleza, Anos, 1948 pág. 21, 1949, 1949, 236,   1950, pág. 202, 1952, pág. 259.

   O traço marcante da sua personalidade é a humildade, herança que legou aos filhos e netos. Despojado de vaidade, vivia do trabalho no Serviço Público e por lazer, trabalhos manuais, que fazia em uma espécie de garagem, onde se encontravam em disciplinada confusão, ferramentas de carpintaria, mecânica, elétrica, sendo o acesso ao seu refúgio vetado. A única porta de entrada era fechada a sete chaves.

   Seu Pai deu provas de querer iniciar “uma família”, a família ORCEL. Primeiro ao mudar o nome de sua mulher e prima de Maria Cândida de Araújo, para Cândida Orcel de Araújo, acontecendo de filhos darem continuidade ao ORCEL de ARAÚJO. Segundo, quando emprestou seu nome a Miguel Orcel de Araújo Filho. Por ser ORCEL Filho, natural assumisse o novo apelido, e principalmente pelo modismo da época, era de se esperar, que seus filhos, pelo menos os homens, fossem Wilson Orcel, Gerardo Orcel, Paulo Orcel. Seria muito para sua pessoa simples. Orcel somente ele. Assinava, Miguel Orcel Filho, como ficou conhecido.

   Avô materno do Francisco Augusto, seu padrinho de batismo e padrinho de Crisma  por apresentação. A cerimônia da confirmação da fé, realizada no ano de 1954, na Capela do Sagrado Coração de Jesus, - Colégio Cearense, Irmãos Maristas, Av. Duque de Caxias, 101, Fortaleza, - pelo Senhor Bispo Dom Antônio de Almeida Lustosa. Relembro a minha ansiedade, sozinho, a esperar a chegada do meu Avô, que suado, vestido no seu usual terno, atrasou. Os meus colegas, acompanhados de pais, avós, bem postos e descontraídos. Meus pais, como sempre, não compareceram. Pediram para ele Orcel Filho, representar o Padrinho, meu tio paterno, Mons. Raimundo Augusto de Araújo Lima, morador na cidade do Crato, Cariri cearense.  

          Homem de fé citava sempre o exemplo do navio inglês “Titanic” que naufragou na fria madrugada do dia 15 de abril de 1912. O Comandante do navio, Capitão Edward J. Smith, no dia 10 de abril, no cais do porto inglês de Southampton, de onde o Titanic zarpou rumo à New York, EUA, haveria lido, para a imprensa, momentos antes da partida, um ostensivo cartaz empunhado por um anônimo, que dizia, referindo-se à fortaleza do navio: “Com este nem Deus pode”. Repetidas vezes Orcel Filho mencionou o caso TITANIC, convicto que a causa do naufrágio, antes de ser provocada por um iceberg, seria castigo divino motivado pela blasfêmia.

      Muito ligado à sua filha Esteany e ao seu genro Antônio Augusto, frequentava a casa, havendo sempre noitadas do milenar jogo de gamão, tão usual no Nordeste de predominante colonização portuguesa. Influência árabe? A rivalidade com sua filha atingia a raia da competição braba, tudo assistido em silêncio, como bons perus, por seu genro e por seu neto José Augusto.  

      Utilizava como transporte para ir visitar sua filha Esteany, as CAMIONETES da Parangaba, de diferentes modelos e marcas, assemelhadas as “van” de hoje, da Ásia Topic, sendo seus donos também autônomos. Não havia empresa concessionária de ônibus da linha Fortaleza à Parangaba, 1945/1965. Orcel, chegava sempre em tempo de jantar. Reclamava na ocasião da pouca ardência do molho de pimenta, enquanto as outras pessoas achavam forte. Um dia, para testá-lo, seu neto José Augusto esmagou em uma colher de sopa algumas pimentas, adicionando um pouco de caldo. Ofereceu então ao avô que, provando e sentindo todo o suco acre e picante, com a água a escorrer-lhe dos olhos azuis, ainda assim afirmou que estava fraco, que somente o que ele fazia prestava.

    A teimosia fazia parte do seu ser. De outra feita, salvou o mesmo “prestimoso” neto José, de levar uma “surra” por ter saído de bicicleta para namorar, em horário proibido pelos pais. A ação custou-lhe duas “cintorãozadas”, pois na aflição de salvar o menino expôs seu corpo. O neto relembra ainda hoje a intervenção salvadora do avô.

        Usava expressões que ficaram: ...hum bom é um dia atrás do outro e a noite no meio... = como tudo passa rápido. ..Hum bom ri melhor quem ri por último. Vou plantar para ele um pé de cá te espero... Pegando os dedos da mão mostrava o polegar = 30 anos; subindo para o indicador = 40; o maior de todos o apogeu, 50 anos; aí começa a descida... o anular, 60. O mindinho, já um baque, os 70 anos! Do mindinho para o cotovelo, a queda brusca dos 70 para os 80 anos... Isso passei para meus filhos, seus bisnetos. Impressiona como netos que não o conheceram têm uma postura igual a sua.

   Como foi escrito morou no bairro do Benfica, Avenida João Pessoa, 3396, logo após aos trilhos do bonde - 1875, The Ceará Tramway Light &., 1947. Havia bonde de primeira classe, duzentos réis e bondes de segunda classe, 100 réis. Viajava no de segunda classe, usando o seu terno surrado, uru* a mão e esnobando a provinciana sociedade da Fortaleza, notadamente o pequeno burguês, o nouveau riche. * Uru, do tupi, cesto ou bolsa de palha destinada à guarda ou transporte de objetos, cereais, etc. Em geral tecido da palha da carnaúba. (6) GIRÃO, Raimundo - Ecologia de um Poema. S / Ed. Fortaleza - Ceará. 1966. Pág. 32. 

   Sabe-se que escrevia bem. Ocorria de ser convocado para redigir textos de maior valia. Consegui-se salvar pouco do que escreveu. Dois exemplos: Registro, no santinho de primeira comunhão de sua filha Ana Esteany Soares de Araújo, realizada na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, Fortaleza, no dia 06 de fevereiro de 1927, uma citação de São Mateus, em Francês, que é a seguinte - (Observar que o dia 06.02. é dia do aniversário do Pai Orcel):

Si vous ne vous tournez pas

Comme des petits enfants n’

entrerez pas dans les royaume

des cieux.

   Deixou ainda escrito para seu neto mais velho:

“José Augusto

Deus te abençõe

Não imaginas a satisfação que tive em saber que fizestes a tua 1ª comunhão!

Já sabia que vinhas assistindo diariamente a missa, justificando deste modo a teu pae, que precisavas fazer a tua 1ª comunhão . . . e com grande satisfação êle fez o teu pedido e desejo.

Por telegrama que me mandou mandou comprar a tua roupinha e o mais próprio para vestir no grande dia.

Venho pois com esta, dar-te a minha benção com os votos de grande satisfação nesta grande festa, a maior de tua vida.”                                 

                                                                                                  

  A conservação dos alimentos era precária. Ainda não havia as indispensáveis e sofisticadas geladeiras. O refrigerador, geladeira, frigorífico, geleira, surgiu no ano de 1913, com o nome de Domestic Electric Refrigerator, “Domelre” posteriormente foi substituído por Kelvinator, o "Monitor-Top", desenvolvido pela General Eletric, 1927. No Bairro Damas, Fortaleza, no ano de 1947, existiam somente duas geladeiras. Geladeira era coisa de rico e adulto. Menino não “mexia” ou “bolia” = bulia em geladeira.  A falta deste então caríssimo utilitário doméstico FRIGIDAIRE determinava, a compra diária dos alimentos perecíveis e a ausência de “suco” ou refrigerante industrializado. Outro eletro-doméstico, o HOSTERIZER = liquidificador, não existia ou era pouco usado, mesmo em casa de gente rica.  A água resfriada na quartinha.

   Havia o consumo de aluá de milho e/ou abacaxi, fermentado durante no mínimo sete dias, em enormes potes de barro, a boca zelosamente vedada com pano limpo, para a bebida não “babar”, azedar e os meninos não “malinarem”. Nas festas juninas, o aluá predominava.

    Bebia-se garapa. Garapa de cana - de - açucar e por extensão qualquer mistura de água adoçada com açucar, rapadura ou mel, acrescida do sumo da fruta escolhida. Garapa de limão. Garapa de maracujá. Refresco meio esnobe, veio depois. Refresco de jenipapo,  cajá, murici, cambica de murici, da raiz do pega pinto, laranja, limão, tamarindo.

  Tomava-se gororoba, ou seja, qualquer refrigerante caseiro. Vitamina, é bem posterior. Usou-se abacatada, bananada. Suco também não era empregado. Comum a salada-de-frutas, uma mistura de frutas cortadas em tamanho mais ou menos igual servida ao natural, disponível no mesmo prato, banana, abacaxi, abacate, mamão, sapoti. Melão e caju não se usava na salada. Melancia, de difícil comercialização, consumida no sertão.    

   Necessária a ida diária de Orcel Filho ao Mercado Público, onde fazia suas compras, originando o hábito da boa alimentação, que era uma praxe em sua casa e na casa dos seus descendentes. Barriga cheia, admite-se, seja um traço cultural do povo do Vale do Acaraú. Servir um almoço com diferentes tipos de carnes, mais arroz, feijão, macarrão, de onde veio este costume? A coalhada cearense como surgiu?  Seria herança árabe, via portugueses, negritude & islamismo?  A ida as compras, era amenizada em parte, com a colheita dos frutos no bem tratado pomar da sua casa.   

   Orcel Filho, cultivou fruteiras exóticas: originárias da Índia, Ásia: Mangueira, predominavam as variedades - espada, manguita, itamaracá, jasmim, bola de ouro, coité, rosa. Ainda da Ásia, cultivava, carambola, groselha, limoeiro, tamarindo. Do México e América Central, importou-se: ateira, sapotizeiro, gravioleira, mamoeiro, abacateiro, bananeira. Sirigoela corruptela de CIRROELA, CIRUELA, em espanhol do México, nome vulgar da Spondias purpure. Introduzida no Ceará em 1938, logo passou a SIRI + GOELA, no modo peculiar do cearense nomear as coisas. GOELA e não como a elite dicionarizou. Cajarana, veio da Polinésia. Romã, da Pérsia. O coqueiro, (Var. Gigante) pelo risco que oferecia a queda dos frutos das suas  altas copas de 18 m de altura, não era cultivado em quintal. Com o advento no Brasil, 1920, do coqueiro anão precoce, (Var. Nana), possibilitou pelos anos cinquenta o seu plantio, em áreas habitadas. E mais, os canteiros de coentro e cebolinha e as ervas medicinais.

   As frutíferas nativas: goiabeira, jenipapeiro, pitangueira, pitombeira, macaubeira, coco babão ou catolé, bacupari, cajueiro, maracujá. Orcel Filho, distribuía as mudas de forma aleatória. Aconteceu de em uma mesma cova, ser plantado uma muda de mangueira espada e outra de itamaracá. Adultas as mangueiras, tornaram-se uma festa para a criançada. Era trepar em uma árvore e por seus entrelaçados galhos, degustar de dois sabores em um só pé.

   O melão-de-são-caetano e a bucha, ambos da África, também contribuíam na florística e no uso útil, bom bril da época. Do urucu, os meninos faziam o colorau que era vendido aos avós. Pouca atenção, modo geral, se dava ao jardim da casa. O quintal era zelado. Já Esteany com esmero cuidava do seu belo jardim, com cerca viva de papoula, sorriso-de-maria, roseiras e folhagens. Cf. Renato Braga, Plantas do Nordeste, Especialmente do Ceará. Ed. Centro de Divulgação Universitária. Fortaleza. 1953. 525 pág.

                                                                                                 

    Os vendedores tinham estilo. Ovo e uva boa, falado de modo rápido em frente a casa de “alguém”, dava nítida impressão de ser Óh viúva boa... Cruzeta ta na hora... Vamos ver a rede dona... Vamos pra rede dona...  Apregoavam seus produtos de porta em porta  em horário certo, o que facilitava o abastecimento da casa. Hora para ofertar frutas e verduras. Outra para vender embiricica de peixe, carne, panelada e fígado gordo. Tempo para anunciar, guloseimas em tabuleiros, bolos. Quebra - queixo, vendido a retalho, pirulitos cuidadosamente enrolados em papel de embrulho e expostos em uma tábua cheia de buracos para acondicioná-los. Cuscus paulista, pequenos, porção individual, chamado pela molecada "peito de moça".

   Chegadinha ou cavaco chinês: casca adocicada, feita com farinha de trigo, goma, água e açúcar. Amarronzada, semi dobrada em forma de cone bem aberto. O som metálico do bater de um triângulo, em um movimento, repetitivo, avisava, sem precisar ninguém anunciar o que estava vendendo. Picolé, conduzido dentro de pesada caixa de madeira e metal, carregada na cabeça. Não havia no Brasil o isolante térmico poliestireno, na sua forma expandida, conhecido pelo nome comercial Isopor ® marca  registrada que pertenceu a BASF. Pipoca e algodão doce. O baleiro e seu sortido estoque.  O leiteiro e a eterna suspeita do produto “batizado”.

     A água boa - oferecida durante quase o dia todo. Água da Pirocaia / Beco da Itaoca, fonte dos herdeiros do Dr. Manoel Sátiro - Mahir e Walter dos Santos Sátiro - na Rua Romeu Martins, contígua a Av. João Pessoa, onde as carroças pipas, abasteciam e saiam para a venda aos moradores das Damas, e outros bairros mais próximos.

    Nos idos de 1955, Miguel Orcel Filho, encontrava-se enfermo. Francisco Gerardo de Souza, seu quinto filho, prestou toda a assistência, inclusive material e sempre   visitava, ao Pai Orcel, como a ele se referia. Em dia e mês não lembrado do citado ano, a noite haveria uma festa - aniversário - de uma das meninas, Ariadni ou Kaliópi, filhas do Sr. Philopimin Leontsinis, n. em Serigo, Grécia, [filho de Emmanuel Alexandre Leonstsinis e de Anastácia Alexandre Leonstsinis] e da Dona Helena Alves Damasceno, vizinhos dos meus avós na Av. João Pessoa, 3396. O Francisco Gerardo vestido de forma impecável, antes de ir à festa, foi conversar com o Pai Orcel. Foi talvez a última alegria do meu avô. Ele ficou feliz em ver o filho todo “arrumado”, elegante rapaz, e comentou entre ingênuo e modesto: meu filho não precisava você ter essa preocupação, esse trabalho todo de se vestir assim para me visitar... O fato foi testemunhado pelo Senhor Roque Daxo Alencar, amigo íntimo do meu Pai Antônio Augusto de Araújo Lima, e que aquela noite estava de “plantão” para acompanhar o ancião Orcel Filho.

         Miguel Orcel Filho frequentador do antigo Mercado Central de Fortaleza, concluído em 1932, destinado mais ao comércio de carne, fruta e verdura. Com acesso pela Rua Conde D’Eu, General Bezerril ou Travessa Crato, sendo preferida a entrada pela General Bezerril. Desativado em 1997. Em uma de suas idas ao Mercado levou uma queda simples, mas com fratura do fêmur, em idoso de efeito grave. Preso ao leito por alguns meses, faleceu com a idade de 74 anos, a 26 de dezembro de 1955. Foi sepultado no Cemitério de São João Batista, em Fortaleza, Ceará.

Ver Fluxogens ORCEL, SOARES & ARAÚJO.                                              

Cf. Francisco Augusto de Araújo Lima, Famílias Cearenses Zero - Soares e Araújos no Vale do Acaraú, 1ª Edição, Fortaleza, 1989. 2ª Edição. Ed. Expressão Gráfica, Fortaleza. 2011. p. 16.  Francisco Augusto. Fortaleza, 08.01.2018.   Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.