Blue Flower

Seja benvindo(a)!

DIGITE O TERMO NA PESQUISA, APERTE O ENTER E AGUARDE O MELHOR RESULTADO!

  

   As origens! Como é importante para o ser humano saber de onde veio. No mês de setembro do ano de 2006, recebi uma mensagem eletrônica de uma jovem Senhora carioca, Ane Cristiane. Ela consultou a página http://www. familiascearenses.com.br/ e enviou uma mensagem aflita, ansiosa, mas cheia de amor e esperança, em poder responder a indagação da sua mãe D. Francisca Cleyde Barbosa dos Santos, álibi Francisca Leide. Responder se seus parentes, os Lucas dos Santos e Barbosa, no sertão do Ceará, poderiam ser localizados. Dona Francisca Cleyde (Leide) emigrou do Ceará, com nove anos de idade, em 1962 “mais ou menos” e lembrava, haver morado, “alem de um cemitério, em um lugar atrasado, onde as pessoas não se registravam, sem energia elétrica, água encanada, TV, bem pra dentro do Ceará no sertão”, por nome IPUEIRAS dos TARGINOS. Mais nada.

   Quase cinquenta anos separa a partida da menina Leide para os dias da querença de busca a sua parentela, corroída pela saudade.

   A vida e sua dinâmica, somada a tendência irrequieta do cearense, tudo sugeria ser uma missão difícil, a de localizar os parentes da Senhora Francisca Cleyde (Leide). IPUEIRAS dos TARGINOS, situada à margem direita do rio Cangati, no município de Canindé. Ipueiras, do tupi, lugar raso onde se acumula água, e Targino nome de família, homenagem ao Coronel José Targino de Góis, primitivo dono, que batizou o lugar inicialmente com o nome de Esperança. Targino, de significado obscuro, origem latina ou germânica. (Cf. O Ceará, Raimundo Girão, 3ª Ed., Ed. Instituto do Ceará, Fortaleza, 1966, p.306). O rio Cangati se une ao Castro, nas Itans, para formar o rio Choró. 

    O assunto não era da minha competência, não se tratava de genealogia, e as informações eram vagas. Estranho sentimento me levou a entrar nessa jornada de fazer a ligação Ipueiras dos Targinos - Rio de Janeiro.

   Penso e escrevo: onde estão os propagadores e cultores da decantada cearensidade? Não existe, por exemplo, uma Secretaria, um departamento, ninguém que ampare essa massa de descendentes de cearenses emigrados, perdidos mundo afora? Qual o motivo para não aderir ao modelo israelita, português ou mesmo italiano, que privilegia largamente os oriundos? O Governo do Estado do Ceará tinha de agir agressivamente, tentando resgatar os milhares de meio (1/2) cearenses, que adorariam conhecer a terra dos seus ancestrais, desde que lhe fosse facilitado o acesso as suas origens e lhes fosse concedida à comprovação da sua cearensidade, o equivalente a um passaporte cabeça-chata, a ser exibido com muita honra. E, convenhamos, não é justo, chega a ser desumano, um Estado com tradição secular de migração, não ter um departamento, uma entidade voltada à orientação de quem quer ir e de quem quer voltar, ou buscar encontrar o elo perdido com seus familiares. Lamentável.

   Não é apologia a genealogia, pois não se trata de genealogia, e sim de solidariedade, humanitarismo e interesse econômico, pois esses cearenses de origem, ‘meio – cearense’, em qualquer lugar de mediana cultura, seriam encarados como um rico patrimônio a ser zelado e atraído e não um estorvo.

   No caso estudado os ventos sopraram a favor. Em uma dessas casualidades que se não explica, havia na época da faculdade de Agronomia, um colega, o João Bosco de Oliveira, filho do Sr. Luís de Oliveira, descendente do Coronel José Targino de Góis, que era o então dono da Ipueiras dos Targinos, Canindé, onde a convite, passei alguns dias, em um longínquo mês de julho. Na propriedade havia uma loja típica do interior, estrategicamente localizada em uma encruzilhada de vias de acesso a Quixadá e outras cidades. Vendia de tudo, prego, sabão, tecido, “veneno” (inseticida), ferramentas agrícolas. Fronteiro à venda, para comodidade dos caminhoneiros, um galpão rústico, alto, onde estacionavam a sombra.

   A lembrança levou a conversa via telefone fixo, com o Bosco e as informações: o nome não existe mais como outrora, a mania de simplificar, levou a redução, agora é somente Targinos, Distrito do município de Canindé, vizinho a Ipueiras dos Gomes. Pouco mais de 180 km da cidade da Fortaleza. Não fosse esta coincidência, o caso haveria morrido no nascedouro, por ser quase impossível se partir para uma ação com dados tão precários. Única opção, ir até lá. E torcer para encontrar ainda alguém que faça a ligação com os familiares da agora amiga carioca, ½ cearense.

    Diário de Bordo

   A batalha não foi fácil. Começou pela procura de uma data para o deslocamento até o Distrito de Targinos. Um planejamento mínimo, qual rodovia seguir, quem procurar. O dia estabelecido foi o de 12 de outubro. Antes de seis horas da manhã já me encontrava a cinquenta quilômetros da cidade de São Francisco das Chagas de Canindé, centro religioso e de romarias. Impressiona a movimentação de veículos e de pagadores de promessa, que fazem o percurso a pé, em grupos de tamanhos diferenciados. Bandos e mais bandos de nativos, acampados a margem e ao longo da rodovia, já amanhecem o dia a explorarem a fragilidade emocional dos fiéis. Em um gesto apelatório, estendem a mão - pedinte de uma esmola qualquer. Velhos, meninas, meninos, mulheres e homens sadios, todos sócios informais na exploração da fé de um sofrido povo, crédulo e carente de chefes e instituições que lhes passem ao menos esperança. Logo após a cidade de Canindé, uma parada obrigatória, na Fazenda Japuara, Sítio ARNEIROZ, de propriedade do Padre Neri Feitosa, octogenário de grandes dotes intelectuais, e legítimo representante deste ilustre e numeroso clã e hoje administrador do ARQUIVO da FAMÍLIA FEITOSA, instalado, lá mesmo na Japuara. Ouvido os seus conselhos, ele que foi vigário na Ipueira dos Targinos, segui em busca de pessoas agendadas e de amigos do Padre Neri e por ele indicados.

   A antiga Fazenda Ipueiras dos Targinos sofreu uma transformação profunda, e é hoje um aglomerado humano, que se desenvolve de forma meio caótica, a mercê da vontade de cada um, mas surge como um centro de convergência no meio do sertão. Inicio os contatos. A princípio eu fui visto como intruso. Desconfiadas, as pessoas mesmo conhecendo os Lucas dos Santos e Barbosa, nada informam, temiam ser algo que comprometesse a sua parentela ou os comprometesse. É preciso argumentar que se não trata de cobrança e nem de herança, apenas de encontrar as irmãs e os pais de uma senhora nascida ali e hoje moradora na cidade do Rio de Janeiro. Conversamos com o Washington Oliveira e a sua bondosa irmã Yolanda, filhos do Sr. Luís de Oliveira. Uma irmã - de - criação deles, a D. Maria do Socorro, simpática senhora, é quem sabe tudo. Conhecer conhece, mas diz, ninguém mora mais ali. Desfia o seu rosário de informações verdadeiras, mas sem endereços, números de telefones, etc. isso só iremos encontrar no Assentamento da Lagoa Verde, duas léguas de estrada de barro, ao norte, bem ali, onde ainda moram parentes mais próximos de D. Leide. A cada contato, se passava os endereços e os telefones no Rio de Janeiro, da Senhora Ane Cristiane e de Dona Francisca Cleyde (Leide). Consegui que o Senhor Robério Lucas dos Santos, fosse comigo, para servir de guia, e para me apresentar no tal Assentamento, coisa de gente politizada, petista, muito esclarecida, e sabe Deus o que mais.

   Como dizem os árabes, estava escrito nas estrelas. Na Lagoa Verde, fui bem recebido. O Assentamento foi conduzido, tecnicamente de modo correto, o assentado em sua maioria, é realmente agricultor, sendo essa a impressão que nos passa. Localizamos uma tia materna de D. Francisca Cleyde (Leide) a Senhora Gerarda Lucas dos Santos e o seu marido o Senhor Manoel Roque de Souza, que abriram as portas da casa e o coração para facilitar o nosso intento.

   Boas Notícias

Prezada Ane Cristiane, é com muita alegria que lhe envio esta mensagem eletrônica e feliz lhe informo que pode comemorar. Localizei as suas tias maternas, e muitas primas e primos e uma sua tia - avó. Segue a relação.

- GERARDA LUCAS dos SANTOS, álibi Geraldina, (irmã da sua avó IDALINA LUCAS dos SANTOS), casada com Manoel Roque de Souza, mora no assentamento da Lagoa Verde, a 12 km, estrada de barro, do Distrito de Targinos, Canindé, Ceará. Estive em casa dela na companhia do Robério primo legítimo da sua mãe e filho de Francisco Lucas dos Santos, irmão da D. Geraldina a quem ele respeitosamente tomou a bênção. O Robério foi como guia, porque no começo da pesquisa o povo me estranhou, ficou assim cismado, qual era a minha intenção em querer saber de tanta gente. Este moço (Robério, +/- 30 anos) foi muito gentil.

No Assentamento da Lagoa Verde conheci as filhas da D. Gerarda: A Gerarda Filha e a Genoveva dos Santos Souza, que chorou de emoção ao saber as notícias da Dona Francisca Cleyde (Leide).

- A prima da sua mãe Genoveva dos Santos Souza - fone n° ¬¬¬¬¬ o endereço para correspondência é Rua S .. B.., ¬¬¬¬ - Canindé, Ceará. Esta prima Genoveva é super divertida e atenciosa, queria matar uma galinha para eu almoçar na casa dela, uma pessoa muito legal, conheci um seu filho o Isaac. Os usos e costumes são conservados.

   Aonde se chega, ofertam café, água, bolo, merenda. D. Genoveva, uma mulher batalhadora, agricultora, mostrou ao longe um serrote, onde ela vai fazer o cultivo de milho e de feijão. Bom povo o nosso. Ane, você deve telefonar para ela, pois foi através dos seus desordenados cadernos, que tive acesso a maioria dos endereços que lhe passo. A emoção tomou conta da Senhora Genoveva. Depois da garapa de açúcar, (água e açúcar, remédio caseiro, para acalmar), providenciado pelo Isaac, ela telefonou para a Ane Cristiane, e foi a primeira parenta a se comunicar após cinquenta anos com a família no Rio de Janeiro.

   Presencio um momento mágico, de emoção contagiante, proporcionado pelo milagre da comunicação via telefone móvel. Lágrimas de felicidade, afeição ao primeiro alô com a prima carioca, até então de existência desconhecida. O sotaque bem diferente, a simplicidade ao falar, pergunta inusitada para primas adultas, uma querendo saber o nome da outra, a idade. Uma vera efígie da cearensidade. Mas tudo era festa, dominava a alegria do re-encontro e a emotividade.

- Gerarda Filha, prima da sua mãe, você se comunica com ela através do mesmo endereço e telefone da Genoveva dos Santos Souza, pois moram a poucos metros uma da outra.

- A sua tia materna Antonilda Barbosa dos Santos, mora no Conjunto Nova Metrópole, Caucaia, Ceará, você liga fone n° ¬¬¬¬¬¬¬¬ pede para chamá- la ou a sua prima Rosinha.

A sua tia materna Maria da Paz Barbosa, Paizinha, mora na Rua E... A.... n°.... – Centro Campos Sales, Ceará CEP 63150-000 Fone: xxx 88 ¬¬¬¬¬¬¬¬

- A sua tia materna Fátima Barbosa dos Santos você escreve para o mesmo endereço Rua S... B..., n° .... - Canindé, Ceará, (ver o CEP na EBCT) pois ela está morando em Canindé.

- Outra prima da sua mãe é a Isamélia, (irmã do Robério, ambos filhos do Francisco Lucas), casada com o Paulo, fone ¬¬¬¬¬¬. Conheci outras pessoas, inclusive um Senhor João Rodrigues da Silva, o João Magro, que também é primo e nunca esqueceu a D. Leide. Para falar com ele liga para o telefone do Paulo. O João Magro confessou que desde o começo sabia tudo, mas “nem era besta de falar nada, antes de saber qual a minha intenção”. Está certo, eita mundo velho sem porteiras.

  O registro de outros nomes não os menciono, por achar que nada iria acrescentar. Mas continuam relacionados, e posso enviar depois. As notícias ruins: o Sr. Antônio Barbosa, avô paterno da sua mãe é falecido e havia anos se ausentara do Targinos; a sua avó materna Idalina Lucas dos Santos é falecida faz tempo e o seu avô Francisco Lucas dos Santos, faleceu à somente duas semanas. Será que a sua ansiedade era uma tentativa dele, na antecâmara da morte, de se comunicar com você? Nossa eu fico sem entender.

   Enfim cumpri o que lhe havia prometido. Não usei a máquina fotográfica que havia levado, (sou péssimo fotógrafo), foi uma sequência de entrevistas, o que me conduziu ao esquecimento. Desculpe a falha. Transmita a Senhora sua Mãe, os meus parabéns pelo feliz reencontro familiar e que ela tem de vir ao Ceará, rever o seu povo, pois é e sempre foi muita querida aqui. Diga o quanto me impressionou a expressão facial de alegria e emotividade dos seus familiares, quando abordei o assunto e citei o seu nome, LEIDE. Das agora minhas amigas Genoveva e Gerarda Filha, recebi compromisso, que irão orar por mim, no que fico feliz e muito agradecido.

Que o Poder Superior cuide de todos nós e nos ilumine!  Fco. Augusto de Araújo Lima. Fortaleza, 12 de outubro de 2006. Re – edição, 02 de janeiro de 2019. A busca aos parentes de D. Leide levou a elaboração do Framílias Cearenses 7 - Ipueiras dos Targinos, Ed. Artes Digitais, Fortaleza, 2006. 420 p.   Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.  Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Anotou-se: Ao 24 dias do mês de outubro de 1813, em ato de desobriga no lugar das IPUEIRAS, da Capela de São Francisco das Chagas do Canindé, o Rvdo. Francisco de Paula Barros, na presença das testemunhas Manoel de Abreu de Oliveira e João Francisco Vieira, casou a Antônio Rodrigues Lopes, f. de Vitoriano Rodrigues e de Francisca de Sales, com Francisca da Silva, f. de Luís Francisco da Silva e de Joana da Cunha. Cf. Livro de Casamentos, São José, Catedral, Fortaleza.1813/28. familysearch.org. 50.